sábado, 19 de abril de 2014

O jogo dos sentimentos




Todos os dias eu passava na frente daquele castelo imenso, de quase cinquenta metros de altura. Envelhecido por causa do tempo, cheio de portas e poucas janelas, com a tinta gasta que já não havia mais cor definível ali. Eu achava triste aquela imagem. Parecia um lugar abandonado, cujo abandono talvez fosse de propósito.


No dia seguinte, quando passei na frente do castelo, me chamou a atenção alguém no último cômodo, que mais parecia um pequeno castelo em cima do grande castelo. Era a figura de um jovem, e de onde eu estava não conseguia muito bem ver as suas características físicas. Fiquei ali olhando e imaginando o que ele fazia ali, sozinho.

Outro dia uma senhora me contou a história do rapaz. Ela era dona da banca de revistas que ficava a um metro do castelo e por ali passavam muitas pessoas por dia. Mas ela me contara a versão dela, do tipo de pessoa que adora criar casos. A dona Maria me abordou porque “percebeu” que eu o olhava com interesse, mas não com o interesse que ela pensava, então a ouvi atentamente.

O rapaz se chamava Leonel e, depois que os pais morreram o jovem se trancou no castelo e nunca mais saiu, já tinha mais de vinte anos de idade. Desde então, ele não sai de casa, e isso é o que falam, pois nunca viram ele na rua.

- Leonel era simpático e alegre, depois da perda dos pais ele se tornou sombrio. – Disse a dona da banca.

Aquela vizinhança era estranha, eu morava a pouco tempo ali. Desde que mudei minha rota e passo na frente do castelo tenho até sentido coisas diferentes. Naquele dia fui para casa com pena de Leonel e cheguei a sonhar com ele.

Acordei e não me recordei mais do sonho, mas sabia que havia sonhado com ele. Aprontei-me e fui para o meu caminho costumeiro. Leonel vivia de portas fechadas. Toda vez que eu passava lá eu o via lá em cima, olhando para um ponto como se fosse uma estátua. Minha curiosidade já não era grande e sim o interesse de entender o que se passava com ele, a fim de fazer alguma coisa para ajudar.

A dona Maria também havia dito que ele havia fechado todas as trezentas portas do castelo, me assustei com o número de portas. E que algumas pessoas já tentaram conversar com ele e o resultado não era bom.
Para quê tanta amargura e orgulho? Pensei.

Passou-se uma semana e eu me interessei em saber cada vez mais daquela pessoa sombria, fadada a um destino cego, com a certeza de não abrir aquelas portas. E talvez, fadado ao esquecimento de si próprio, pois tai jovem e já se confinando, sem dedicação a si mesmo. Mas o que eu poderia pensar se nem ao menos o conhecia? Os vizinhos diziam muito sobre ele, mas eu tinha vontade de descobrir o que eu achava disso tudo. Eu sentia que podia saber.

Um dia eu fiquei em frente ao castelo, esperando que ele me olhasse, e visse que eu estava. Iria pedir para ele descer, não sabia o que dizer, mas eu só queria falar com ele. Leonel me olhou por frações de segundos e então eu balancei os braços num aceno e gritei um olá, depois, como quem não dá importância nenhuma, ele entrou e fechou a pequena porta avistada ao meu olhar longínquo.

No caminho para casa eu coletei ideias para ajudá-lo. Era mais forte que eu. Não dava para deixar isso passar, não eu. Então, ao sentar em minha escrivaninha, peguei papel e caneta e fiz um rascunho do que eu gostaria de fazer para que ele sentisse o mundo novamente. Após horas escrevendo, peguei um chá e relaxei. Estava decidida, ia fazer Leonel voltar a viver.

A minha ideia era de escrever uma mini-história sobre os sentimentos e eu escreveria sobre um a cada dia. Eu mostraria a ele o mundo do meu ponto de vista e o faria pensar com jogos de perguntas sentimentais filosoficamente sobre o que ele está fazendo de sua vida. Era isso, e eu começaria no dia seguinte.

E agora eu tinha mais um compromisso, todas as noites. Na primeira noite eu escrevi sobre a amizade. Coloquei a história em um envelope e no dia seguinte coloquei na caixinha de correspondência do castelo. Um homem me viu e disse:

- Ele nunca sai lá de cima e não há mais ninguém na casa.

De novo as pessoas me influenciando a desistir do jovem da casa sem vida. Mas coloquei mesmo assim e parti.

Percebi um dia, que a caixinha estava cheia, o cara realmente tinha razão. Eu fiquei um pouco triste. Leonel me via todos os dias mexer na sua caixa e nem assim tinha sensibilidade e curiosidade para saber o que tinha lá dentro. Fui para casa, e no caminho eu senti meu entusiasmo se esvair. Algumas lágrimas rolaram em minha face. Eu nunca havia visto alguém daquela forma e isso me apertou o coração profundamente. Chorei por ele. Quase a noite toda.

Acordei com meus olhos inchados. Mas resolvi continuar e o tema do dia era a esperança, eu tinha muita. Passei lá, e para minha surpresa a caixa estava vazia. Do jeito que eu colocava era difícil alguém pegar de fora, pois a caixa era funda e grande, então me coração se encheu de alegria e eu esbocei um sorriso bobo. Olhei para cima para ver Leonel e ele não estava. Será que ele lera as mini-histórias? Vibrei tanto entusiasmada que dona Maria percebeu, e já querendo saber o motivo, eu só a cumprimentei e sai dali.

Motivei-me mais a continuar, agora com mais atenção com o que eu ia escrever. Ele poderia ter passado a noite lendo e por isso não apareceu.
Comecei a perceber que as cartas eram recolhidas agora, uma vez por semana. Então ele descia as pessoas da vizinhança não sabiam de nada. O povo adora falar sem saber a realidade do contexto.

Tinha dias que eu sonhava com coisas importantes e correlacionava com um sentimento que eu achava importante ele saber meu ponto de vista, ou até mesmo mensagens dos céus. Eu acordava e ia direto à escrivaninha para escrever, pois o meu pensamento era que ele soubesse. Foi quando percebi que ele já estava fazendo parte da minha rotina. E eu não o via mais como um estranho, já que eu compartilhava meus sentimentos com ele.

Num dia de chuva eu havia escrito sobre a força. Peguei meu guarda-chuva e caminhei até lá. Quando ia colocar a carta na caixa quando ouvi o portão principal ranger. Meu coração acelerou desesperado. Havia uma carta presa ao grande portão de ferro. Leonel sabia que eu ia todo dia ao mesmo horário. Será que ele escrevera uma carta para mim, depois das centenas que eu mandei a ele? Peguei a carta e guardei. Eu sabia que não era das minhas porque eu assinava meu nome e essa não tinha remetente e cujo destinatário estava escrito: para Branca.

Ao chegar em minha humilde moradia, sentei no meu puff e fui logo abrindo a carta e assim estava escrito:

Sentimento: caridade

E então, depois que você insistiu atenciosamente, com sua calma e toda a sua paciência, vendo em mim o que ninguém mais via e também me fazendo ter a oportunidade de voltar a viver os sentimentos que eu deixara de lado, eu descobrir que, além dos sentimentos ofertados caridosamente, eu voltei a sentir sensibilidade. Eu me fechava em noites enfadonhas, e as sombras eram minhas companhias constantes. Eu só sabia o que era depressão negra.
Percebi que eu podia fazer caridade a mim mesmo, e depois de todas essas surras sentimentais, eu enfim consegui abri todas as portas do meu castelo. E nomeei cada uma com o sentimento correlato ao contexto da porta fechada. Foi de grande valia e eu ainda nem sei como consegui atravessar todas as portas que fechei durante anos. A vizinhança ainda deve pensar que tenho vinte anos, mas já tenho vinte oito, e sei disso, porque quando eu descia nesses dias para pegar as cartas eu os ouvia.
E você Branca, doou alguns minutos dos seus dias para mim. Doou sua imaginação, seu carinho, sua atenção, suas palavras e também seu amor. Assim como você finalizava suas cartas, que tudo o que se faz com amor se tornam perfeito e válido.
Eu seria um ingrato se não aproveitasse essa oportunidade. Quando podemos achar pessoas que se doam assim, sem querer nada em troca? E sabe de uma coisa? Vivi esses anos na escuridão por acreditar que não a encontraria, não pela morte dos meus pais. As pessoas acham que o motivo é esse, mas não. Por simplesmente eu presenciar o amor dos meus pais um pelo outro é que eu sofri por não ter alguém que gostasse tanto de mim assim, como os dois manifestavam. E morreram juntos, se amando. Sei que não é maduro da minha parte ter me isolado, mas eu não tive companhias que me agradassem e nem amigos que me amassem. E tão logo o destino a trouxe, fez você bater na minha porta principal e me buscar da angústia que eu vivia.
Eu me alimentei de cada sentimento que você colocava naquelas cartas. Eu também as degustava, mas elas saciavam muitas partes minhas insaciáveis antes. Eu me perguntava todos os dias quem era você e por que estava fazendo isso. Mas parei de questionar quando vi que já tinha muitas cartas. Alguém não perderia tempo comigo se não fosse por algum motivo, então me senti otimista pela primeira vez em anos.
Essa caridade foi a única que fizeram sem querer nada em troca. Sinto-me tão cheio de esperança que até nomeei a primeira porta com esse sentimento.
Eu tenho uma frase a você:
- Obrigado por não desistir de mim mesmo quando eu não demonstrei gratidão.






Nenhum comentário:

Postar um comentário